10 de setembro de 2011

Crítica: O Retorno de Ringo

IL RITORNO DI RINGO

(O RETORNO DE RINGO)

Direção: Duccio Tessari

Roteiro: Duccio Tessari e Fernando Di Leo

Produção: Luciano Ercoli e Alberto Pugliese

Ano: 1965

Elenco: Giuliano Gemma, Fernando Sancho, Lorella de Luca...

Duração: 97 minutos

Ventania, violência crua, risadas irônicas e um retorno triunfal: as principais características do western spaghetti em um único filme...

Análise: Como já se sabe, o herói mais imitado em toda a história do western é o idolatrado Django, de Sergio Corbucci. Além dele, outros personagens tomaram um destino parecido, porém não tão exagerado: são os casos do Homem-sem-nome, de Sergio Leone e de Ringo, de Duccio Tessari. O último, aliás, foi um dos precursores deste conceito heroico-vingador, até mesmo antes do próprio Django (1966) e ao lado do Homem-sem-nome (1964). Foi, então, no mesmo período do primeiro spaghetti realizado que se deu o lançamento do também primeiro filme de Ringo: Uma Pistola para Ringo. Passado o primeiro ano do gênero, eis que surge o mais bem elaborado e emocionante O Retorno de Ringo, responsável por suceder e dar continuação à jornada do herói.

Voltando completamente arrasado de uma violenta Guerra Civil, o até então Capitão Montgomery Brown (Giuliano Gemma) se depara com sua cidade de forma irreconhecível, justamente como sua própria pessoa. Tomada pelos bandidos mexicanos e com sua esposa Helen (Lorella de Luca) prestes a se casar com um destes marginais, ninguém desconfiara de quem pudesse ser o verdadeiro Capitão Brown, o qual escondia sua verdadeira identidade para bolar planos e reconquistar seu antigo território, juntamente à sua autêntica família.

Com todo este argumento, pouco se pode esperar de um trabalho repleto de aventura e ação, como acontece em muitos westerns: desta vez, o filme centra-se nos pequenos passos dados pelo Capitão até sua devida ressurreição, acrescentando uma dose de drama e mais umas poucas de suspense, porém ficando um resultado com cara de “arrastado”. Apesar de tal falta de ação em seu início, isto é refletido no final com muitos tiros, poeira e o melhor do cinema spaghetti: a violência crua, sem aquela elegância para representar as mortes.

No entanto, o que faltou na elegância da matança veio pelas mãos de Duccio Tessari nos momentos mais psicológicos e reflexivos, nos momentos pelos quais Giuliano Gemma ressuscitava seu personagem que voltaria a se chamar Ringo e completaria o ciclo oferecido pelo título da película. O diretor ainda foi um dos poucos que conseguiu utilizar uma das maiores peculiaridades técnicas do western spaghetti – os chamados close-ups – de forma positiva, após o pioneiro Sergio Leone: realmente conseguimos ser levados pelos sentimentos mostrados nos olhos dos atores, seja de raiva, ódio, comoção ou amor; além desta, outra utilização de tal plano era mostrar a decadência dos cidadãos do oeste, bem como sua sujeira, barbas estranhas e seu suor. Neste caso, tais pessoas seriam representadas pelos atores ainda desconhecidos: Giuliano Gemma em começo de carreira é o melhor dentre todo o elenco, apesar das atuações no geral serem um tanto quanto caricatas. Por fim, a trilha sonora é de autoria do maestro Ennio Morricone que, apesar de sua genialidade, faz uma das trilhas mais regulares de sua carreira; isto acontece pelo fato do filme ser centrado em um tema-principal (vídeo abaixo), fazendo com que os sons se repitam de forma exagerada.

Como os destaques de O Retorno de Ringo, aparecem as cenas de batalha até com certa vantagem na frente de outros aspectos que mereçam ser falados, como a direção de Tessari: os socos e pontapés chegam a parecer reais, com movimentos rápidos e muita agilidade por parte dos atores; vendo estas cenas, elas podem até ser consideradas iguais tecnicamente com a cena do espancamento em Três Homens em Conflito. Assim como também era pastiche de Sergio Leone, os ruídos naturais aparecem exageradamente e os cenários são muito bem construídos, mas com um destaque para detalhes adicionais como as palhas voando pelas cidades devido ao forte vento.

Porém, também há baixos e um dos principais deles é a demora com que o filme tem para engrenar: apesar de Tessari usar sua genialidade em tais cenas, elas soam como forçadas e arrastadas. Além disso, os figurinos são coerentes, contudo aparecem simples demais e sem tantos detalhes necessários para causar uma boa impressão da época.

Tema de “O Retorno de Ringo”, cantado por Maurizio Graf.

O segundo filme da série de um dos primeiros heróis do western é, portanto, superior ao primeiro, porém não chega a ser algo esplendoroso nem magnífico. É aquele tipo filme para se recordar e, caso haja interesse, rever com um olhar mais detalhado o possível, pois os elementos empregados por Tessari fazem do trabalho algo maior. A linha tênue entre os acertos e erros é bem grande, já que os pontos mais altos são os detalhes mais importantes para que seja feito um bom filme, enquanto que as falhas derivam de coisas simples, porém que pesam no resultado final.

MINHA NOTA PARA ESTE FILME:

ANÁLISE FEITA POR BRUNO BARRENHA.

3 comentários:

  1. Não há dúvida que este filme é muito melhor a UMA PISTOLA PARA RINGO. A principal inspiração de Duccio Tessari para o filme é a obra literária épica ODISSEIA, de Homero.

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  2. De fato a trilha de Morricone parece ser uma das menos elaboradas. Não existe aquela riqueza de instrumentos, guitarras estridentes,estalidos de chicote, vocais em tom de ópera, etc. Quanto a simplicidade das figurinos talvez derive do fato do roteiro ter se baseado num período histórico da história da Grécia retratado da obra de Homero, A Odisséia como disse Emanuel Neto. Os close-ups são a marca raegistrada do Western spaghetti, bem como o estampido cheio, forte -poderíamos a ter dizer metaforicamente 'colorido'- elaborado pelos técnicos e a música sublinhabdo a todo tempo a ação. Costumo dizer sempre que western Spaghetti sem essas características não deve ser consideradocomo tal, pode até ser italiano,mas sem o tempero spaghetti.
    Parabéns Barrenha pela notável resenha. Inspiradíssima

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  3. Realmente Bruno, O Retorno De Ringo tem ótimas características de um faroeste italiano, ventania capim seco sendo arrastado folhas voando e um aspecto desértico das ruas, misturando-se a um filme pacato e quieto. o começo do filme já se percebi isso quando o Gemma entra no boteco e só se escuta a conversa dele com o balconista e as batidas da faca, o bandido fazendo aquela brincadeira perigosa cravando a faca entre os dedos. enfim, um filme refinado que o Tessari ainda usou o tema clássico o Silêncio fazendo jus ao filme.

    Luiz Carvalho

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